Opinião negativa do coordenador do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar
«Temos uma qualidade de gestão muitíssimo medíocre»
A reforma dos cuidados secundários que está a ser pensada ainda carece de «ideias seguras», mas já é certo que a gestão não ficará na mesma.
A menos de um mês para o fim do primeiro mandato do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar, José Mendes Ribeiro, que está a coordenar os trabalhos, evitou falar, no passado dia 20 de Outubro, em Lisboa, acerca das propostas que estão a ser elaboradas para entregar ao ministro Paulo Macedo.
A sua participação numa conferência promovida pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (ApegSaúde) sobre o tema, justificou, tinha por objectivo «ouvir» os administradores hospitalares presentes na iniciativa. A reunião decorreu na Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa, no Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar de Lisboa Norte.
«Nós também não temos ainda ideias seguras sobre o que há para fazer», confessou igualmente o economista, lembrando que tem entre mãos um «problema complicado» e para o qual contribui a situação difícil do País.
Ainda assim, garantiu que a reforma dos hospitais passará muito pela «melhoria de eficiência da gestão» da rede.
«A qualidade médica é muito superior à qualidade de gestão do SNS. É um ponto de partida fundamental», identificou, reforçando: «Temos uma grande qualidade médica no sistema e uma qualidade de gestão muitíssimo medíocre — e contra mim falo, porque tenho estado ligado a ela.»
O esforço para mudar o panorama foi repartido por todos os que têm responsabilidades. Desde os conselhos de administração aos directores de serviço.
A necessidade de encolher e flexibilizar mais as equipas foi uma das pistas deixadas por José Mendes Ribeiro.
«Temos de evoluir para os outcomes» no financiamento
A canalização de dinheiro para os hospitais será outro dos aspectos a alterar. «Se passámos do financiamento de inputs para outputs, agora temos de evoluir para os outcomes», adiantou o coordenador da reforma.
Continuando a levantar a ponta do véu, o economista considerou que «o custo da não qualidade é intolerável para o País». Referia-se à taxa de infecção hospitalar de 9,9% — «é um número astronómico. Temos de criar condições para baixá-lo para 5% em dois anos».
«É por esse tipo de objectivos que temos de guiar a reforma dos hospitais. Não queremos privatizar nada», garantiu José Mendes Ribeiro, respondendo às críticas que lhe têm sido feitas desde que liderou o processo de empresarialização no tempo de Durão Barroso.
A liberdade de escolha que preconiza, centrando o sistema no cidadão, como também diz, é outra das ideias normalmente associadas a uma «postura ideológica».
«Ainda temos tempos inaceitáveis de resposta na cirurgia. Em Espanha são 60 dias, no máximo. Depois disso o doente vai aonde quiser», comparou o coordenador da reforma hospitalar.
Ao nível das consultas os respectivos tempos de espera foram igualmente classificados de «absolutamente inaceitáveis» e a referenciação não ficou atrás: «Fizemos um levantamento e chegámos à conclusão de que a rede é muito frágil; responde muito mal; e não cobre muitas das áreas. Na prática, não funciona.»
Para sustentar as afirmações, José Mendes Ribeiro referiu o caso de um homem de 71 anos que se dirigiu a um centro de saúde, em Lisboa, com perdas de sangue, a quem foi marcada uma consulta para o dia 12 de Setembro do próximo ano.
Críticas ao corte «cego»
Apesar de apontar para a melhoria da gestão, o economista revelou ter dito ao ministro da Saúde que o corte de 11% nos custos operacionais dos hospitais, previsto para 2012, é «cego» e «profundamente injusto».
Isto porque, conforme explicou, «há hospitais que já fizeram um grande esforço e outros que não fizeram esforço nenhum».
O coordenador técnico, por outro lado, na sequência dos muitos telefonemas que tem recebido, achou por bem esclarecer: «A encomenda que o nosso grupo teve não é para fazer a carta hospitalar e dizer quantos hospitais fecham.»
Uma vez que tem sido confrontado com a existência de uma lista de 15 unidades a encerrar, acrescentou: «Não temos nenhuma ideia acerca dos hospitais que vão fechar.»
«TM» foi então reler o despacho que criou o grupo e, entre os seus objectivos, com direito a uma alínea, consta o seguinte: «Rever a carta hospitalar.»
CHLN presta contas
Fruto das medidas que vêm sendo tomadas, o presidente do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), João Correia da Cunha, aproveitou a conferência da APEGSaúde para divulgar alguns resultados obtidos até ao momento.
«Estamos com crescimento zero de consumos», congratulou-se, referindo-se aos medicamentos e material de consumo clínico.
Outros dados avançados apontam para vários valores que se encontram em queda. Menos 15% nas horas extraordinárias, menos 7,7% na rubrica de fornecimento e serviços externos e ainda menos 4,2% em salários — tudo isto sem abalar a «paz social».
«Não houve, que seja do meu conhecimento, limitação de acesso a nenhum doente», garantiu igualmente o administrador.
Da lista de «problemas» identificados na rede, o presidente do CHLN destacou a falta de articulação entre os vários níveis de cuidados, a dimensão e a capacidade instalada, a referenciação e o financiamento.
Sérgio Gouveia
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Governação clínica
Depois de muitas reformas anunciadas para os hospitais, é com «grande expectativa» que Manuel Brito, vogal do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central, espera os resultados da presente iniciativa.
«A reforma que tem faltado é essencialmente na área clínica», apontou o administrador. No seu entender, o actual modelo, já com cerca de 30 anos, deveria ser substituído por outro onde impere a governação clínica.
«Trata-se de uma área que, particularmente em tempo de crise, deveria ser mais responsabilizada e ter mais capacidade de intervenção», advogou, justificando que a escassez de recursos obriga à definição de prioridades quanto à sua aplicação.
«Não temos uma cultura de avaliação dentro dos nossos hospitais. A tudo o que apareça para avaliar reagimos mais violentamente ou passamos ao lado», verificou também Manuel Brito, esperançado que haja melhorias com as mudanças que a reforma possa trazer.
TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2011.10.24
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