Eduardo Vigil aponta a existência de informação como o caminho para fazer melhor
Médicos têm «obrigação de ser mais eficientes»
Para Eduardo Vigil, chefe de documentação clínica de um hospital espanhol, as instituições têm de se «comparar e competir», e passar a centrar-se em toda a história clínica do doente, e não apenas no momento em que contacta com o hospital.

Eduardo Vigil, cardiologista e chefe de documentação clínica do Hospital Virgen del Rocío, em Sevilha, apontou a responsabilidade dos médicos em mudar a forma de pensar a Saúde. Numa conferência promovida pela Associação Portuguesa de Engenharia da Saúde, o palestrante sublinhou que os médicos, na maioria dos casos, «tornam as doenças crónicas», mas «curam muito pouco». E isso, lembrou, «pressupõe um consumo muito elevado de recursos». Além do mais, sublinhou, «30% dos doentes a quem se deu alta são novamente admitidos» no hospital, um cenário que, a juntar à discussão na Europa de como manter os sistemas de Saúde sustentáveis, acaba por levar o cardiologista a apontar a ideia da responsabilização dos profissionais: «Os médicos de todo o Mundo têm obrigação de ser mais eficientes.»
Na opinião de Eduardo Vigil, «os médicos têm de fazer algo para não abordar da mesma maneira os cuidados». E isso passa não só por desenvolver a «telemedicina» e a «hospitalização no domicílio», mas também por «fazer uma autocrítica» aos procedimentos. Por exemplo, o orador questionou se «é necessário ter um anestesista por cirurgião para colocar uma gota no olho de um doente que vai ser operado às cataratas», ou se será necessário «prescrever anti-retrovirais uns atrás dos outros» quando o doente não responde.
«Fazer melhor, mais eficiente»
Para o cardiologista espanhol, os médicos «têm de se comparar, têm de competir», tal como «o Hospital Virgen del Rossío tem de competir, não só com os hospitais de Málaga ou de Córdova, mas com os de Coimbra ou de Lisboa». É que, conforme explicou, «estamos na Europa, as pessoas movem-se e vão onde as tratam melhor».
Razões pelas quais a existência de informação e a produção de conhecimento a partir da mesma «é o único caminho» para «fazer melhor, mais eficiente». Eduardo Vigil frisou na sua palestra, sobre «História electrónica e inteligência clínica», que «sem dados é impossível analisar e é impossível que nos comparemos». Além disso, a informação serve também para que «as pessoas saibam que não as enganamos».
O médico sublinhou que «é preciso dizer aos cidadãos quais são os resultados» da actividade dos profissionais de saúde e afirmou mesmo, a propósito, que «o consentimento informado que é possibilitado actualmente aos cidadãos é uma fraude». Isto porque «falamos da média de mortalidade» de determinada doença, mas esses dados «são de Massachusetts ou daqui?», questionou.
«Instrumento poderoso»
Para o presidente do conselho de administração (CA) dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e moderador da sessão, Fernando Regateiro, nas palavras do médico espanhol «há um aspecto muito claro» que aponta, nomeadamente, para uma situação em que «não pode haver bunkers no hospital». Assim, os clínicos devem continuar a «recorrer aos colegas» para solucionar problemas e criar sinergias», e não se pode ignorar que actualmente existe um «instrumento poderoso que é o conhecimento que se gera no hospital». Lamentou, contudo, que ainda não haja «a percepção do bem que este conhecimento significa», em termos de «ganhos de eficiência, de qualidade».
O administrador dos HUC também comentou o facto de Eduardo Vigil ter insistido na sua palestra que é fundamental uma mudança de paradigma nos hospitais, passando-se da «lógica do internamento para a lógica do processo». Fernando Regateiro admitiu que «gerir o processo do doente» não é uma preocupação dos hospitais em Portugal. Estes, afirmou, «preocupam-se com o doente enquanto ele está à sua frente». E sublinhou que «em sistemas de Saúde como o da Andaluzia» o percurso do doente já é uma preocupação — «o processo de financiamento já inclui o antes, o durante e o depois» —, pelo que o que se fizer em todo o processo «reflecte-se em poupança ou desperdício».
Susana Ribeiro Rodrigues
«Empresas fogem da interoperabilidade»
A denúncia em relação a empresas que dificultam a compatibilidade entre diferentes sistemas de informação partiu do presidente do CA dos HUC, Fernando Regateiro. Disse o responsável que há «empresas que fogem da interoperabilidade». A propósito do assunto, explicou: «No meu hospital, há duas empresas que fogem uma da outra.» E isto passa-se «com intervenções a nível do Ministério [da Saúde]».
Por seu lado, José Carlos Nascimento, assessor do secretário de Estado Adjunto e da Saúde, admitiu que «o Estado tem responsabilidades no conflito entre fornecedores, ao não definir as regras» nesta matéria. Sublinhando que da parte dos administradores hospitalares deve haver «oposição firme» a esse tipo de práticas, o responsável informou que «nos próximos dias» o Governo vai avançar «com algumas transformações que vão ser operadas a nível dos sistemas de informação do Estado», nomeadamente, «separando o que são normas, certificação, capacidade de fazer benchmarking», dos aspectos «meramente operacionais».
Desperdício nos sistemas de informação
Para o coordenador nacional do registo de saúde electrónico, Luís Campos, «a descontinuidade dos investimentos» na área da informação e da qualidade tem sido dos «maiores desperdícios». Na intervenção que fez no encontro da Associação Portuguesa de Engenharia da Saúde, o médico deu mesmo o exemplo do hospital em que trabalha, o de S. Francisco Xavier, que «no fim dos anos 90» empreendeu um processo de aquisição de sistemas de informação. Esse processo «caiu», afirmou o internista, porque «se mudou de administração». Nos anos mais recentes, criticou também Luís Campos, «deixou-se que cada hospital tivesse o seu sistema de informação».

Além disso, destacou que apesar dos investimentos efectuados, «não se exploram todas as virtudes» do sistema. E exemplificou que nos serviços de Urgência se tem «instalado o mesmo sistema de informação em todas as urgências polivalentes, em 20 ou 30 urgências médico-cirúrgicas e em cerca de 18 serviços de urgência básica». Contudo, «se quisermos dados agregados dos serviços de Urgência, não existem».
Outro aspecto que Luís Campos sublinhou é o facto de que «a informatização, por si, não tem grande evidência de impacte na qualidade nem na redução dos custos». Isto se não tiver «informação estruturada», como sistemas de alerta e protocolos.
Equilíbrio na propriedade intelectual
A questão da propriedade intelectual dos dados que vão sendo carregados nos sistemas de informação foi um dos aspectos abordados por José Carlos Nascimento, assessor do secretário de Estado Adjunto e da Saúde. O responsável questionou o chefe de documentação clínica do Hospital Virgen del Rocío, de Sevilha, Eduardo Vigil, sobre o «mecanismo de equilíbrio» ali utilizado. O médico espanhol deu o exemplo prático de que, caso um profissional queira utilizar os dados produzidos por outro, «tem de explicar porquê». Os «problemas», conforme indicou Eduardo Vigil, colocam-se nos «departamentos transversais». Mais uma vez recorreu a um exemplo: «Os laboratórios não podem usar dados da Cardiologia.»
Sublinhe-se que o encontro promovido pela Associação Portuguesa de Engenharia da Saúde contou ainda com a participação do vogal do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central, Manuel Brito, o director da gestão de tecnologias e informação do Hospital de Fernando Fonseca, Rui Gomes, além de José Costa e Roberto Molero, da empresa InterSystems.
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