quarta-feira, 10 de Março de 2010
APEG0013
GEN SOFTL

Novas tecnologias da informação ao serviço da Saúde
Desumanização da consulta é risco a evitar 

É inquestionável a utilidade clínica das tecnologias da informação, tanto no meio hospitalar como nas USF. No entanto, algumas questões se levantam, nomeadamente o perigo de desumanização da consulta e a perda de confidencialidade dos processos.
A introdução de uma mudança nem sempre é bem aceite por todos, porém, com o passar do tempo, essa mudança passa a ser imprescindível no dia-a-dia, mesmo daqueles que inicialmente tinham dificuldade em aceitá-la. Foi assim com o aparecimento de novos meios e técnicas de diagnóstico e será assim, também, com a introdução das novas tecnologias de informação na prática clínica.
Esta foi a conclusão a que chegou um vasto grupo de especialistas que debateu este tema numa mesa-redonda que decorreu no auditório do Hospital dos Capuchos, no passado dia 10, organizada pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde e que contou com as participações de João Gamelas, presidente do conselho geral desta entidade, Manuel Brito, administrador do Centro Hospitalar de Lisboa Central, e José Costa, director da Intersystems.
«Quando falamos em mudanças e de novos instrumentos para a Saúde, pensamos sempre como podemos melhorar o nosso rendimento individual e o rendimento da nossa organização», afirmou João Gamelas.
Num período em que todos os investimentos têm de ser bem pensados, ponderando a relação custo/benefício, a introdução de tecnologias da informação na Saúde é, segundo o especialista, «inevitavelmente prioritária, não só pelo retorno em termos de investimento, mas também pela optimização dos serviços e do rendimento».
Documentos ilegíveis, dificuldade de consulta de arquivo em tempo real, processos duplicados, extravio de processos e exames repetidos são alguns dos problemas frequentes nos hospitais onde o papel ainda domina. «É daqui que temos de sair, a caminho de um futuro que nos permita eliminar ou, pelo menos, minimizar o uso do papel», erradicar «desperdícios, repetições, extravios», e promover «mais e melhor acesso aos doentes e mais e melhor comunicação entre os médicos e outros profissionais de saúde», argumentou João Gamelas.
Mais segurança, maior durabilidade e legibilidade dos processos, dos registos e dos exames, e menos burocracia é o que prometem as novas tecnologias da informação no âmbito da Saúde. Neste sentido, o dirigente lembrou ainda que «teremos uma diminuição do risco e do erro, com possibilidade de alertas, de retorno de informação, de confirmação de algumas prescrições mais críticas».
Em Portugal já se fazem prescrições electrónicas legíveis, exactas, completas, com alertas sobre doses incorrectas, e começa também a surgir a digitalização de imagens e exames de diagnóstico, e a marcação de consultas por meios electrónicos. A grande dificuldade reside na introdução da história clínica dos doentes em suporte informatizado.

História clínica unificada

«A história clínica é uma forma organizada de ver, ouvir e tocar o doente, com um factor fundamental, o registo. É nesta óptica que a história clínica é fundamental na abordagem e acompanhamento do doente», afirmou Manuel Brito, salientando que se trata de uma questão cultural, na qual se está a introduzir uma mudança «muito mais profunda do que possa parecer».
«Como é que vamos encaixar estas novas tecnologias na nossa forma clássica de fazer a história clínica?, que será feito dos longos resumos que escrevíamos nos registos dos doentes, alguns deles verdadeiros romances, pela linguagem elaborada que muitos colegas utilizavam?», questionou o administrador do Centro Hospitalar de Lisboa Central.
Sem saber ainda que informação deve ser registada, Manuel Brito voltou a interrogar se se deve manter o texto livre, eliminando detalhes que possam ser úteis no futuro, ou, pelo contrário, multiplicar a informação, sob o risco de estar a juntar «lixo» que será fonte de confusão para todos os especialistas a quem aquele registo chegar. «É preciso encontrar aqui o equilíbrio», defendeu o especialista, reconhecendo que tem sentido alguma dificuldade.
Sendo certo que as novas tecnologias trazem uma nova forma de organizar e estruturar a informação, «era estranho que isso não se cruzasse com a nossa prática clínica», pois «não há dúvida de que termos no nosso quotidiano acesso a uma série de dados e indicadores de uma forma rápida é uma mais-valia extraordinária», sublinhou.

Cátia Jorge

Confidencialidade e humanização

A par das vantagens de toda esta inovação, duas grandes dúvidas se levantem: a primeira é referente à confidencialidade dos dados dos doentes e a segunda reside na possibilidade de desumanização da consulta.
«Creio que há aqui algum fundamentalismo, porque como sabemos a confidencialidade que hoje temos com os nossos registos é muito pouca», uma vez que «os processos percorrem os hospitais e saltam de mão em mão», defendeu Manuel Brito.
Relativamente ao risco de desumanização da consulta, o especialista relatou que, numa breve revisão das reclamações dos doentes, começou a aperceber-se de queixas pouco comuns.
«Os doentes queixam-se de que, na Urgência, os médicos não olham para eles, só olham para o computador. Esta era uma queixa que não tínhamos há uns anos», afirmou Manuel Brito.
Reconhecendo os benefícios das tecnologias da informação, Carlos Pereira Alves revelou-se, durante a sessão de debate, mais céptico quanto à introdução de novas «máquinas» entre o médico e o doente. «Dos sete minutos que tenho para consultar um doente, cinco são perdidos a olhar para o computador para introduzir os dados que o doente me apresenta», descreveu. Para além disso, continuou, «aceito que o processo seja importante, mas receio que se perca a parte clínica em função da informática. Não podemos esquecer que somos médicos».
Também o urologista Reis Santos, moderador do debate, defendeu que a vertente clínica não pode ser trocada pela informática. Contudo, acredita que «se nos adaptámos ao multibanco, à via verde e ao telemóvel, com o tempo conseguiremos adaptar-nos a esta nova forma de fazer Medicina».

TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2008.07.14
0813001C103 08CJ28c

A História Clínica Unificada
Perspectivas Diversas e Experiências Internacionais 
Em que medida as novas tecnologias de informação permitem ao médico melhorar o conhecimento do doente? Os sistemas de suporte à decisão médica, baseados em processamento de informação electrónica, conduzem mesmo a ganhos de eficiência?
Faz sentido centralizar a informação clínica dos pacientes? Terá alguma utilidade clínica?

10 de Julho de 2008 | 10h00
Auditório do Hospital dos Capuchos

Mesa Redonda 
Médicos, Enfermeiros, Responsáveis por Sistemas de Informação 

Programa
10h00   |  Abertura
João Gamelas
Presidente do Conselho Geral da APEGSAUDE
10h15   |  Introdução
História Clínica Unica, Unificada ou Diversa? 
Manuel Brito
Médico, Administrador do Centro Hospitalar Lisboa Central
Experiências Internacionais
José Costa
Director Intersystems
11h00   |  Debate
Moderador
José Manuel Reis Santos
Médico FE Universidade Católica Portuguesa
Painel
entre outros, já confirmados
Abílio Casaleiro
Centro Hospitalar Lisboa Ocidental
Antonieta Melo Ávila
Hospital de Santa Maria
Ary Catarino
Médico Hospital dos Capuchos
Augusta Gaspar
Centro Hospitalar Lisboa Ocidental
Carlos Carvalho
Médico Director ORL Hospital São Sebastião
Carlos Domingues
Centro Hospitalar de Coimbra
Carlos Pereira Alves
Médico Hospital dos Capuchos
Élvio de Jesus
Ordem dos Enfermeiros
Manuel Caldas de Almeida
Médico | Director Clínico Hospital do Mar
Maria Filomena Cabeça
Farmacêutica Centro Hospitalar de Caldas da Rainha
Maria João Marques Gomes
Médica Adjunta Direcção Clínica Centro Hospitalar Lisboa Norte
Maria Manuel Salazar
Centro Hospitalar do Porto
Rosa Cartaxo
Centro Hospitalar Lisboa Central
Rosário Sepúlveda
Hospital de Pulido Valente

13h00   |   Fecho e Cocktail

Local
Auditório do Hospital dos Capuchos
Junto ao Campo dos Mártires da Pátria

«A história clínica é uma forma organizada de ver, ouvir e tocar o doente, com um factor fundamental, o registo», afirmou Manuel Brito. (Na foto reconhecem-se ainda, da esq. para a dta., José Costa, Reis Santos e João Gamelas)

 


Relógio de Sol do Hospital dos Capuchos
Hospital dos Capuchos
Alameda Stº António dos Capuchos
Lisboa

O Hospital dos Capuchos tem, talvez, o mais antigo exemplar conhecido em Portugal de um relógio de Sol (1586).

No chamado "Pátio do Relógio" stua-se a antiga cisterna do convento, cuja boca tem cerca de 1 metro de altura e forma octogonal, e no topo da qual foi colocado um relógio de sol em pedra, onde está gravada a data de 1586 e as iniciais do construtor, e que pertencia à cerca do Convento.

A boca da cisterna encontra-se revestida de azulejos azuis e brancos, provavelmente da 2ª metade do século XVIII, cuja decoração é composta por medalhões, no centro dos quais estão ramos de lírios, e por rica ornamentação rocaille de volutas, concheados, anjinhos e "asas de morcego".

É uma peça arquitectónica independente, de boa execução, e tem três quadrandes diferentes:
1 - Quadrante horizontal;
2 - Quadrante vertical, meridional, sem declinação;
3 - Quadrante equinocial, setentrional.

O quadrante horizontal, é iluminado sempre que o sol esteja acima do horizonte, isto é, desde o seu nascimento até ao seu ocaso.

O quadrante vertical nunca é iluminado mais de 12 horas, máximo tempo que se verifica nos equinócios, a 21 de Março e a 23 de Setembro.

De 21 de Março a 21 de Junho, o tempo de iluminação dimunui, sendo na última data apenas cerca de 8 horas, das 8 da manhã às 4 da tarde; de 21 de Junho até 23 de Setembro vai aumentando, atingindo o máximo do seu valor em 23 de Setembro e depois diminui até 22 de Dezembro em que o período de iluminação decorre desde cerca das 7 horas e 30 m da manhã às 4 hoas e 30 m. da tarde. Aumenta depois até 21 de Março, repetindo-se o ciclo já descrito.

O relógio equinocial setentrional é iluminado apenas no período que decorre de 21 de Março até 23 de Setembro. De 23 de Setembro a 21 de Março, lapso de tempo em que o Sol está no hemisfério Sul, o quadrante não é iluminado.

Devemos notar que as horas a que nos referimos, são as horas solares ou verdadeiras e não as horas legais.

Lamentavelmente encontra-se em mau estado de conservação, e colocado num pátio sombrio actualmente rodeado de edifícios.




A construção destes instrumentos constitui uma aplicação da Trignometria, ramo da matemática que se ocupa do estudo das relações entre os lados e ângulos de triângulos planos e esféricos, permitindo assim medir distâncias inacessíveis.

A interdisciplinaridade que os relógios de sol originam - arquitectura, astronomia, história, matemática - torna-os instrumentos privilegiados para a divulgação científica. Os relógios de sol constituem uma das primeiras aplicações do conhecimento do movimento aparente do sol e do uso das sombras. São instrumentos que determinam as divisões do dia através do movimento da sombra de um objecto, o gnómon, sobre o qual incidem os raios solares e que se projecta sobre uma base graduada, o mostrador.

Consoante a sua posição, os relógios de sol têm denominações diferentes. Os modelos mais comuns, tanto em peças isoladas como integrados em edíficios, são os relógios de sol equatoriais, os verticais e os horizontais.

Em todos eles, o gnómon deve estar paralelo ao eixo da Terra, pois dessa forma a direcção da sombra não depende das estações do ano, mas apenas da hora solar.

A marcação das horas num relógio de sol raramente coincide com as horas assinaladas por um relógio mecânico. Em primeiro lugar é necessário ter em conta os ajustes horários de verão e de inverno: caso se esteja na hora de verão, é necessário adicionar uma hora às horas indicadas pelo relógio de sol. Como o tempo legal está organizado em fusos de 15º onde a hora legal é constante, a hora dada pelo relógio de sol necessita ser corrigida de acordo com o meridiano de referência do fuso horário do local em que se encontra. Em Portugal, o meridiano de referência é o Meridiano de Greenwich. Então, por cada grau de longitude Oeste adicionam-se 4 minutos (porque cada hora corresponde a 15º, logo, a 4 minutos corresponde 1º) e por cada grau de longitude Este subtraem-se 4 minutos.

É necessário também ter em conta que, como o movimento de translação da Terra não é perfeitamente uniforme, os dias solares não têm sempre a mesma duração. A hora dada pelo relógio de sol adiamta-se e atrasa-se ao longo do ano em relação à hora legal, sendo essa variação descrita pela chamada equação do tempo. Consoante o dia e o mês do ano, essas variações podem originar atrasos e avanços de cerca de um quarto de hora. Por exemplo, no dia 27 de Junho regista-se um atraso de cerca de três minutos, quantidade essa que deverá ser adicionada à hora dada pelo relógio de sol.

Fonte: Luzboa, A arte da luz em Lisboa. Extramuros Dezembro 2004; Olisipo, Boletim Trimestral do Grupo Amigos de Lisboa, Ano XXV - Nº 100 Outubro de 1962; e História e Azulejos, dos Hospitais Civis de Lisboa de A. J. Barros Veloso e Isabel Almasqué.

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